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terça-feira, 22 de agosto de 2023

O PATINHO FEIO de H. C. Andersen

 .

Adaptação de Nicéas Romeo Zanchett 


Era uma vez muito
 feio para ser pato.
não sabia o coitadinho
que bicho era de fato. 
Para com certeza saber 
se era uma pato sem graça 
ou ave de uma outra raça, 
foi o mundo percorrer.

.
          À beira de um lago, numa grande fazenda, Dona Pata chocava sua ninhada, e pensava: 
       - Se contei certo os dias, amanhã todos deverão estar fora da casca. 

          De fato, dona Pata não errara a conta: no dia seguinte, todos os patinhos já tinham saído do ovo.  Isto é, todos não. Faltava um. 

          Dona Pata não estava entendendo e pensava: 
          - Por que este ainda não nasceu? - perguntava ela. - Já era tempo!

          Daí a pouco ela uma voz fraquinha chamando: 
         - Ajude-me! Estou preso aqui dentro! Solte-me!

           Dona Pata, então, deu uma bicada no ovo, começando a quebrar a casca. Logo o ovo estava
 todo aberto, e... ela teve uma enorme surpresa!
o patinho que saiu daquela casca  não tinha nada de parecido com os outros seis. Era tão feio que a pobre Dona Pata não se conteve e exclamou: 
         - Será que é mesmo um filhote de pato? Mais parece um peruzinho! Com essas penas cinzentas... e assim tão grande!

          A coitada estava mesmo na dúvida. Então resolveu tirar a prova: 
         - Vamos todos nadar no lago. Quero ver se este desengonçado sabe nadar. Se não, terei certeza de que é mesmo um filho de peru. 

         Ao contrário do que Dona Pata esperava, o patinho feio sabia nadar melhor que todos os outros da sua ninhada. 

            - Bem, acho que você não é um peru. Melhor assim - suspirou aliviada. 

      Quando saiu da água com seus patinho, Dona Pata levou-os para conhecerem os outros animais da fazenda. E recomendou:
       - Meus filhinhos, mostrem-se sorridentes, educados e gentis.   Não se esqueçam de cumprimentar aquela velha pata lá adiante. Ela é a senhora mais importante e querida de toda a fazenda, porque tem uma argola vermelha   num dos pés. Agora, todos em fila, vamos! 

         E lá se foi Dona Pata com seus patinhos, marchando como escoteiros. 



Muito sérios e respeitosos, 
vão altivos os patinhos.
Mamãe à frente - garbosos. 
Marcham como soldadinhos. 
.
Pé pra fora, bico erguido, 
lá vão eles a marchar. 
Quem erra o passo é repreendido. 
com mamãe a se zangar.
.
Atenção: alto! Marchar!
Quem grita não é o capitão, 
Mas a mamãe a comandar
o valete pelotão.

           Caminhando sempre em fila, os patinhos passaram diante da velha pata...
           - Que belos patinhos! - exclamou ela ao vê-los. - Mas que é aquilo? 
            
            Dona pata apressou-se a explicar: 
            - Foi o último que nasceu, Excelência...
            - É feio, não? Mas parece muito forte... Conforme-se minha cara. 

           Mais adiante, um outro pato deu uma bicada no patinho feio. O pobrezinho correu a esconder-se sob as asas da mãe. Tinha levado um susto enorme! Ainda por cima, todos os outros animais da fazenda começaram a rir. E continuaram caçoando dele o tempo todo. O patinho feio não tinha sossego: bicado de um lado, enxotado de outro, era maltratado por todos. 



              Ninguém gostava dele. O pobrezinho era diferente e tão desajeitado, que até as galinha não podiam vê-lo sem cacarejar : 
        - Có -có -có! Saia daqui seu feioso! 

           Dona Pata suspirava triste. Não sabia mais o que fazer. Nem se atrevia defendê-lo contra os ataques de todos. Mas, apesar de tudo, o patinho feio crescia, cada dia mais forte e  robusto. Foi ganhando corpo e autoconfiança, suas asas cresceram e empenaram... 

           Depois de algumas semanas, ele já não aguentou mais aqueles maus tratos. Resolveu abandonar sua casa. Saltou a cerca e foi voando até o grande lago, onde viviam patos selvagens, que eram muito elegantes e não se misturavam com os da fazenda. 




               Os patos selvagens, assim que o viram, comentaram: - Olhem, este é um enjeitado! Que será que veio fazer aqui?
          Para exibir-se ao recém-chegado, uma pata vaidosa pôs-se a voar. Mas, tão logo levantou voo, viu os caçadores ali por perto e deu o alarma. Todos os patos selvagens fugiram mais que de pressa.


 O patinho feio, tremendo de medo, correu a esconder-se  debaixo do capim e cobriu a cabeça com as asas. Um cachorrão caçador aproximou-se dele, mas, vendo que era muito pequeno e feio, deixou-o e foi perseguir os elegantes patos selvagens. 


           Assim que os caçadores foram embora, o patinho saiu de seu esconderijo. Andou bastante e chegou a uma cabana velha e pobre, com a porta desconjuntada e o telhado quase caindo aos pedaços. Lá moravam uma velhinha, uma galinha e um gato. 

            - Oh, uma visita! Entre! - disse a velhinha . - Você sabe por ovos? Minha galinha só bota ovos duros como pedra...


           - Có, có, có, Como? - protestou a galinha. - Meus ovos são  de ouro maciço!

            Todas as manhãs a velhinha tentava cozinhar os ovos de ouro e é claro que não conseguia. Por isso jogava-os fora. A galinha se desesperava, mas nada podia fazer: ela queria ovos de verdade, que servissem para comer. O único que não se queixava , naquela cabana, era o gato.

            - Só sei miar, e, quando me acariciam o pelo, eu ronrono. Você sabe ronronar? - perguntou o gato ao patinho feio. 

           - Você sabe botar ovos de verdade? - tornou a perguntar a velhinha.
            - Você é capaz de botar ovos de ouro? - cacarejou a galinha. 

           O pobre patinho feio sentiu-se tonto: não sabia miar como o gato, nem botar ovos de verdade, quanto mais de ouro! Mas, assim mesmo, ficou morando ali. Passaram-se duas semanas e o patinho começou a sentir saudade do lago onde nascera. Queria muito nadar... Disse isso à galinha, mas ela pareceu não entender. 

            - E para onde você pretende ir? Aqui nada lhe falta. Você foi bem recebido. que mais quer?

            - É que eu preciso de água para nadar!
            
            - Você sempre tem o que reclamar, hein? - ralho a velhinha. - Eu é que poderia me queixar... Você não sabe miar, não sabe ronronar, não sabe botar ovos, e ainda reclama? Se não está satisfeito, por que não vai embora? 

            - É... pelo jeito, acho que vou mesmo... - balbuciou o patinho.

            - Já vai tarde! - cacarejou a galinha, malcriada. 

            Todos esses acontecimentos faziam com que o patinho se sentisse cada vez mais triste e deprimido. 


              O patinho feio pôs-se a caminho. Andou, andou... até que chegou o outono. O esquilo, a coruja, todos os animais já se preparavam para o inverno, pois viviam num país onde caía neve. 

            Uma tarde, quando o sol já ia se escondendo atrás da montanha, o patinho feio viu um bando de belíssimos pássaros, grandes e de longo pescoço flexível, levantarem voo de uma moita. Eram cisnes selvagens que deixavam as regiões frias em busca de lugares mais quentes. O patinho feio não sabia o nome daquelas lindas aves, mas ficou a admirá-las, encantado. Nunca vira pássaros tão belos e elegantes. Fazia cada vez mais frio, e o patinho volta e meia parava para aquecer-se.


Nada depressa, patinho, 
que o inverno está gelado. 
Se não te aquecer nadando, 
vai ficar congelado. 
.
Não pare pra descansar,
o inverno é teu inimigo. 
Talvez pra frente nadando 
encontres um bom abrigo. 
.
Não desanimes, patinho,
nadando com destemor, 
pois desta prova tão dura
tu vais ser o vencedor. 

               O inverno era intenso. O patinho feio continuava a nadar, mas ficava cada vez mais cansado. A cada dia, nadar se tornava mais difícil, pois a água começava a gelar. E foi gelando, gelando... até que o patinho ficou preso no meio do gelo, sem poder sair. Ia morrer gelado!


            Mas passou por ali um camponês, viu-o e libertou-o, quebrando o gelo com o salto da bota. Com pena do patinho, levou-o para casa. 

            Aquecido ao pé da lareira, o patino abriu os olhos e viu duas meninas, filhas do camponês.
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             As meninas ainda eram pequenas e não sabiam como cuidar do patinho, que a esta altura já estava bem crescido e sabia muito bem o que queria. As duas tentaram obrigá-lo a tomar leite, a voar dentro de casa, a subir num bastão. O patinho tratou de fugir.  Preferiu sentir frio a ser maltratado. Tratou de voar para longe, e foi se abrigar numa moita. 


              Que crianças desajeitadas! - pensava ele. - Será que não encontro ninguém que me ajude? Que vida a minha... Só porque sou feio, me tratam mal... Se aquelas crianças ao menos tivessem um pouco de delicadeza... Mas paciência. Passarei o inverno ao relento...
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             O patinho feio acabou consolando-se. Aninhou-se na moita e dormiu. Foi muito frio, gelado mesmo, mas o patinho aguentou firme. 

               Finamente o inferno passou e chegou a primavera. O patinho feio sentiu que suas asas estavam mais fortes e o sustentavam muito bem no ar.


              Um dia voou para mais longe e encontrou um magnífico jardim, com um pequeno ago entre as flores.  Nadando no lago havia lindas aves brancas. Eram grandes e majestosas, com longos pescoços flexíveis. o patinho aproximou-se daqueles belos animais, pensando: 
               - Talvez me recebam mal e me biquem. Mas estou tão sozinho... De qualquer forma, sendo um patinho feio, já estou acostumado a ser maltratado. E certamente não será pior que as caçoadas da velha pata, as bicadas dos patos e a troça de gatos e galinhas. 

             Mas... uma coisa muito estranha aconteceu: quando o patinho feio pousou graciosamente sobre as águas, os  outros o olharam com admiração. 

           - Quem será este belo jovem? - perguntaram curiosos os cisnes uns aos outros. - Deve ser um nobre, vejam que distinção! 

             O patinho aproximou-se dos cisnes. Todos o rodearam, admirando sua beleza. Sá então ele se olhou no espelho da águas...

              Que surpresa! Não era mais um patinho feio, mas um lindo cisne de penas alvas como a neve, e um longo pescoço flexível...
              Oh! Que felicidade! Não precisaria mais fugir nem esconder-se. Agora podia nadar tranquilo no meio dos outros cisnes...  Olhou-se novamente nas águas, depois para os companheiros. não era sem motivo que o admiravam; era o mais belo de todos. 

                 Mas o ex patinho feio não se envaideceu. Só ficou contente, muito feliz mesmo, porque de agora em diante ia viver entre irmãos e amigos que o tratavam bem. Finalmente encontrara sua verdadeira família. 

Finalmente descobriu 
que não era mesmo um pato, 
mas um lindo cisne branco.
E que beleza de fato
Tem que ser reconhecida:
se fora um patinho feioso,
agora era um cisne formoso. 

 Nicéas Romeo Zanchett 

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