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sexta-feira, 21 de julho de 2023

O PEQUENO POLEGAR - Adaptação Nicéas Romeo Zanchett

 



            Esta é a  história de sete irmãos contada por Charles Perrault. 
O caçula era chamado de Pequeno Polegar. Tão esperto e inteligente que com ele ninguém podia. Até mesmo a força bruta sabia como vencer. facilmente. 

             Era uma vez um lenhador que tinha sete filhos homens. O maior tinha doze anos, o caçula seis e se chamava Pequeno Polegar. Este era muito pequenino. Quando nasceu tinha o tamanho de um dedo polegar, por isso lhe deram esse nome. O Pequeno Polegar não falava muito, mas em compensação sua cabecinha não parava de pensar. Embora fosse o menorzinho, ele era o mais esperto dos irmãos. 

          O lenhador era muito pobre e não tinha meios de sustentar os sete filhos. Por isso combinou com sua mulher levá-los para floresta e deixá-los lá, pois diziam que havia um gênio que cuidava das crianças que se perdiam no mato. O Pequeno Polegar, escondido debaixo do banco, ouviu aquela conversa. Como gostava muito dos pais, não queria ficar longe deles e então traçou um plano. Esperou quando todas estivessem dormindo, saiu bem quietinho e foi para o riacho que passava perto da casa e recolheu uma porção de pedrinhas brancas. Na manhã seguinte toda a família do lenhador saiu para cortar lenha no mato. Enquanto todos andava, o Pequeno Polegar foi deixando cair as pedrinhas brancas, para marcar o caminho. 

          Os irmãos do Pequeno Polegar trabalhavam animados cortando lenha. Enquanto isso, o lenhador e a mulher se afastaram silenciosamente sem que os filhos percebesse. Em seguida voltaram para casa por um caminho desconhecido das crianças. Horas depois, os irmãos deram pela falta dos pais. 

         - Eles devem voltar logo - disse um dos meninos. Decerto foram recolher lenha mais adiante.    

           À tardinha, como os pais não apareceram, os meninos  ficaram muito assustados:
           - Que faremos sozinhos aqui no mato? 
           - Não tenham medo - disse o Pequeno Polegar. -  Venham comigo. Eu os levarei de volta para casa. 
 
           Você? Ora, o menorzinho de todos... Como vai conseguir isso? Nenhum de nós conhece  o caminho de volta!
            Não se preocupem. Vocês vão ver como chegaremos em casa. 

             Seguindo as pedrinhas brancas, o Pequeno Polegar  conduziu os irmãos para casa, sem errar o caminho.

           Quando o Lenhador e a mulher viram os meninos de volta, decidiram levá-los novamente ao mato no dia seguinte. O Pequeno Polegar, também desta vez ouviu a conversa dos pais. Tratou de ir recolher pedrinhas brancas no riacho... mas não pode sair de casa. A porta estava fechada com um cadeado tão grande  e pesado, que ele não conseguiu abri-la. 

           Na manhã seguinte, quando saíram para o mato, o Pequeno Polegar levou o pão que a mãe lhe dera. Em vez de comê-lo, foi deixando cair pedacinhos pelo chão enquanto caminhava. Acontece que no mato havia muitos passarinhos... E à medida que os pedacinhos de pão iam sendo deixados pelo menino, os passarinhos iam comendo um a um! Assim, naquela tarde, os sete meninos não conseguiram encontrar o caminho de volta para casa e se perderam no mato.

            O pior foi que começou a chover, uma chuva bem forte que logo deixou as crianças molhadinhas.  
            O Pequeno Polegar subiu numa árvore para ver se avistava a casa dos pais, à luz dos relâmpagos. 


             Depois de muito olhar em todas as direções, o Pequeno Polegar viu, ao longe, uma casa enorme.
             - Parece um castelo - disse ele aos irmãos. - É escuro e feio, mas, não vejo nenhum outro abrigo!

           O Menino desceu das árvore e os sete irmãos de dirigiram ao casarão que ele avistara, lá de cima.


         Naquela casa morava um gigante feiticeiro.  Quando os irmão bateram à porta, a mulher dele veio abrir. 


          - Oh! Sete meninos! Deus meu, aqui mora um gigante feiticeiro! Se ele vê vocês, come todos num só bocado! Vamos embora, depressa! 
           - Mas estamos com frio... Está chovendo tanto! = suplicou o Pequeno Polegar. 

            A mulher do feiticeiro ficou com pena dos meninos e mandou-os entrar. 
            - Venham secar as roupas perto do fogo. 

            Meu marido não está em casa, e talvez demore um pouco para voltar.

            Os meninos agradeceram e entraram. Mas nem tinham ainda acabado de secar as roucas e o feiticeiro bateu à porta: 
Quatro batidas acabo de dar, 
estou com fome e todo molhado, 
Abre, mulher, quero me enxugar
e um carneiro inteiro comer assado.

            Mais que depressa, a mulher escondeu as crianças embaixo das camas.

              - Fiquem quietinhos, não façam barulho - recomendou ela. 

              E o feiticeiro entrou, e                   
Eu sou o gigante comilão. 
Vejam o tamanho desta pança.
Pra minha fome é pouco um caldeirão, 
mas gosto mesmo é de crianças: 
assadas bem gordinhas, várias delas,
com batatas e mais frituras, 
ou cozidas nas panelas
São mesmo uma gostosura. 
>
Bem que atino
aqui perto, aqui perto
(sou mesmo muito esperto)
sinto cheiro de menino. 

                - Ah, cá estão eles! Sete meninos!

               - Venham cá, quero comê-los! Como são apetitosos...
               E o gigante pegou na mão o Pequeno Polegar. A mulher assustada,  falou: 
           - Mas eles são tão magrinhos... Você não acha melhor esperar que engordem um pouco? 
 

             - Tem razão, mulher -respondeu o gigante. 
               - Prepare um bom jantar para estes garotos...
            Você sabe que gosto de meninos bem gordinhos!

           Mais que depressa a mulher obedeceu. 

          Depois do jantar, o gigante ordenou que a mulher vestisse um gorro em cada menino e pusesse todos na cama para dormirem. 

            - Mas onde? - perguntou a mulher. - Não temos quarto desocupado!
             - Ora, ponha-os no quarto de minhas queridas filhas - respondeu ele. 

            O gigante feiticeiro tinha sete filhas ainda pequenas. Não eram bonitas. Todas eram dentuças, como o pai. Mas justamente por serem parecidas com ele, o gigante as achava lindas e fazia questão de que se vestissem muito bem. Queria que as filhas parecessem princesas, por isso elas usavam coroas na cabeça. Não as tiravam nem para dormir!
 
               O Pequeno Polegar, muito esperto, prestou atenção às coroinhas e ficou pensando no assunto. Quando todos estavam dormindo, ele levantou bem quietinho e trocou as coroas das meninas pelos gorros de seus irmãos. 
          - Em feiticeiro não se pode confiar - pensava ele. - Finge de bom, mas...

           As suspeitas do Pequeno Polegar eram justas, Quando bateu meia-noite, o gigante entrou no quarto. Pretendia degolar os meninos para comê-los no dia seguinte. Tocou com a mão a cabeça deles, sentiu as coroas e pensou que fossem suas filhas. Passou para a outa cama, sentiu os gorros, mas, para certificar-se, passou a mão sobre a boca das meninas e...
          - Ora, estas são minhas lindas filhas dentuças! - gritou ele, já zangado, e voltou-se para a cama dos meninos: - Vocês fizeram uma troça, seus malandros! Mas não me escapam!

            Os meninos já tinham acordado com o barulho.  E mais que de pressa saltaram da cama e saíram correndo. 

             Como os meninos eram muitos, o gigante se atrapalhou e, antes que pudesse pegá-los, todos já tinham fugido. O gigante feiticeiro correu atrás deles, mas os meninos eram muito espertos e e sempre perdia de vista, porque era noite e estava escuro. Cansado, o gigante acabou dormindo ali mesmo no campo. 

Os sete meninos aproveitaram a oportunidade: pularam o muro de uma casa velha e se esconderam lá dentro. 

           O gigante estava com sono, porque naquela noite não tinha dormido.  Quando acordou, não viu nem sinal dos meninos. Ficou furioso e praguejou:
            - Maldito sono, que me derruba quando mais preciso estar acordado! Aqueles magricelas sumiram! Mas não há de ser nada; volto para casa, calço minhas botas de sete léguas, e percorro toda a região. Eles não hão de me escapar!

             O gigante foi para casa e calçou suas botas de sete léguas. 

                 Depois saiu, furioso por ter perdido a pisa dos meninos. Corria subindo montanhas e atravessando rios com a maior rapidez. Com aquelas botas mágicas, a cada passou que dava, andava sete léguas!  
           O gigante percorreu todos os campos, vales e montanhas do lugar. Olhava em todos os cantos, atrás de cada árvore, de cada pedra, até debaixo d ponte ele procurou os meninos. Mas não conseguiu encontrá-los, porque dento das casas, que não eram dele, o gigante não podia entrar.  Ele correu durante várias horas, até que não aguentou mais. Exausto, caiu no chão, bem perto da casa onde os sete  meninos estavam escondidos. Dai a pouco o gigante dormiu tão profundamente que roncou alto. O Pequeno Polegar ouviu e, devagarinho, bem quietinho, saiu do esconderijo e aproximou-se dele. 
 
           O Pequeno polegar, sempre muito esperto, calçou as botas de sete léguas e com dois passos chegou à casa do gigante. Bateu à porta e a mulher veio abrir. 
          - Depressa! - disse ele. - Seu marido foi aprisionado por um bando de malfeitores. Para soltá-lo eles querem um resgate em ouro e pedras preciosas. O gigante mandou-se para buscar o tesouro que está escondido aqui. Para andar depressa deu-me as botas dele, está vendo? Se eu não levar o tesouro bem depressa, os malfeitores o matarão. 

          Vendo que o menino estava mesmo com as botas de sete léguas, a mulher acreditou e entregou o tesouro dentro de uma sacola. 

Pra casa ele vai
de botas de sete léguas.
Salta e não cai
levando os irmãos. 
Pelos campos ele vai 
por cidades a passar, 
corre e não cai
nosso Pequeno Polegar. 

           Quando o Pequeno Polegar e seus irmãos chegaram em casa levando toda aquela riqueza, seus pais os receberam com grande alegria. 

            - O gênio da floresta devolveu nossos filhos com uma fortuna! Que bom! Agora vamos viver sempre jutos e felizes. 

Graças à esperteza 
do Pequeno Polegar 
foi vencida a malvadeza
e voltaram para o lar. 
Com o tesouro trazido 
vivem agora em paz. 
Polegar muito sabido
continua um bom rapaz. 

Adaptação: Nicéas Romeo Zanchett 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

PANGARÉ - Por Maria Yvonne Atalécio de Araújo



PANGARÉ 
                 Pangaré é um cavalo. 
                 É um cavalo pequeno. 
                 Pangaré é manso, manso. 
                 Benedito vai buscar o Pangaré. 
                 - Pangaré, você quer passear? 
                 Você quer passear comigo? 
                 Pangaré vai andando. 
                 Ele vai devagarinho, devagarinho. 
                 Pacatá, pacatá; pacatá pacatá...
                 Benedito ri, ri...
                 - Vamos Pangaré, vamos! 
                 Vamos passear um pouco...
                 Pangaré vai subindo, subindo...
                 Pangaré sobe a estrada do cafezal: 
                 Pacatá, pacatá; pacatá, pacatá... 
                  Benedito chama Fernando. 
                  Benedito grita: 
                   - Olhe, olhe, Fernando. 
                  Eu vou galopar um pouquinho...
                  Olhe bem pra mim. 
                  Benedito aperta as esporas. 
                   - Upa! Upa! 
                  Pangaré dispara a correr. 
                  Pangaré galopa, galopa. 
                  Pacatá ... pacatá... pacatá...
                   Benedito fica com medo. 
                   Benedito começa a chorar. 
                   Vovó grita: 
                   Puxe as rédeas, Benedito. 
                   Puxe as rédeas. 
                   Benedito não pucha as rédeas. 
                   Pangaré corre! 
                   Pangaré galopa, galopa...
                   Pacatá... pacatá... pacatá...
                  Vovó chama Simplício. 
                  Vovó diz assim: 
                  - Corra Simplício, corra!
                  Vá ajudar Benedito. 
                  Simplício monta a cavalo. 
                  Simplício galopa, galopa...
                  Simplício chega pertinho de Pangaré e dá 
                  um puxão nas rédeas! 
                   Pangaré para depressa. 
                   Benedito até suspira! 
                   Benedito ri um pouquinho e diz assim: 
                    - Que susto! 
                   - Que suto Pangaré me deu! 
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Pesquisa e postagem Nicéas Romeo Zanchett 

                

            






segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O SAPATEIRO E OS ANÕEZINHOS



O SAPATEIRO E OS ANÕEZINHOS 
De Jakob e Wilhelm Grimm 
Adaptação: Nicéas Romeo Zanchett 
               Naquela cidadezinha havia um sapateiro que, apesar de muito trabalhar, ficou tão pobre que perdeu tudo o que tinha, exceto um pedaço de couro que dava apenas para fazer mais um par de sapatos. Uma noite, ele cortou aquele couro, nos moldes de um bom par de sapatos, mas como estava muito cansado, deixou para cosê-los no dia seguinte. Em seguida foi deitar-se tranquilamente e dormiu. 
               Logo pela manhã, quando o sol ainda não havia surgido, levantou-se, fez suas orações e dirigiu-se para a oficina.  Qual não foi sua surpresa, ao encontrar os sapatos já prontos em cima de uma mesa de trabalho. 
Ficou muito admirado e nem sabia o que pensar. Pôs-se então a examinar aqueles sapatos e verificou que estavam bem acabados como se tivessem sido feitos por mãos de mestre. 
                 Não demorou muito e apareceu um freguês em quem os sapatos ficaram muito bem. Por isso, feliz da vida, pagou um bom preço por eles. 
                  Com o dinheiro recebido daquele cliente, o sapateiro pode comprar mais couro para fazer não apenas um, mas dois pares de sapatos, que certamente venderia com bom lucro. Quando chegou a noite, ele cortou o couro para os dois pares e deixou para cozê-los no dia seguinte, mas isso novamente não aconteceu porque, quando ele se levantou, os dois pares já estavam prontos e logo apareceu um novo freguês, que os comprou  por muito dinheiro. 
                  E dessa maneira, foi possível comprar mais couro suficiente para quatro pares de sapatos. Novamente, no dia seguinte, de manhã bem cedo, ele encontrou os sapatos prontos. E assim sempre acontecia: ele cortava o couro para novos pares à noite e, pela manhã, os encontrava prontos. Em pouco tempo enriqueceu e tornou-se importante. 
                   Uma noite, quando já se aproximava o Natal, ele acabou de cortar couro para novos pares de sapatos, mas antes de deitar-se, disse à esposa: 
                    - Que tal se nós ficássemos escondidos, esta noite, para descobrir quem está fazendo meu trabalho? 
                    Ela concordou e os dois se esconderam num canto da pequena sala, atrás de algumas roupas que estavam penduradas, e ali ficaram espreitando. Assim que deu meia noite, entraram dois anõezinhos, maltrapilhos, que se sentaram, em em frente ao outro, e começaram a trabalhar. Eles cosiam, furavam e martelavam com perfeição e tão rapidamente, que os olhos do sapateiro quase não conseguiam acompanhá-los. Quando terminaram o trabalho, levantaram-se e foram embora. 
                   Na manhã seguinte, a mulher do sapateiro disse ao marido: 
                   - Querido, esses pobres anõezinhos nos tornaram ricos e nós devemos demonstrar-lhes nossa gratidão. Eles estão tão mal vestidos! Com todo esse frio que está fazendo devem passar mal. Vou costurar camisas, casacos, coletes e calças para eles; também farei uma meias de lã e você fará, para cada um, um par de sapatos bem acabadinhos. 
                   O marido concordou de boa vontade e à noite, quando tudo estava pronto, em vez de sapatos cortados, eles deixaram os presentes em cima da mesa e esconderam-se para espreitá-los. 
                    Quando deu meia noite, os anõezinhos entraram, prontos para começar o trabalho. Quando viram  os presentes, ficaram surpresos e, ao mesmo tempo, muito contentes. Apanharam as roupas, vestiram-se e puseram-se a cantar e dançar. 
                       Depois se retiraram e nunca mais apareceram, pois o sapateira já estava rico e não precisava mais deles. 
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MORAL DA HISTÓRIA 
Não se pode deixar de ajudar quem estiver precisando. Mas, tão logo tenha se recuperado, deve andar com as próprias forças. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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domingo, 6 de outubro de 2013

CATHERINE DOUGLAS - Uma história verdadeira.


CATHERINE DOUGLAS
A donzela que defendeu o rei
Uma história verdadeira.
               Conta a lenda que Jaime I da Escócia era um bom rei; mas quando subiu ao trono, contra a vontade de poderosos conspiradores, reinava no país a corrupção e desordem total. Para impedir que os poderosos fidalgos causassem prejuízos aos seus vassalos, teve de se mostrar muito durão e corajoso. Por esse motivo muitos fidalgos lhe tinham um ódio mortal e alguns deles, capitaneados pelo Sir Robert Graham, tramaram uma conspiração para assassinarem o rei. 
                No inverno, com a finalidade de celebrar uma grande festa, o rei foi à cidade de Perth acompanhado da rainha e algumas damas; alojou-se na abadia, enquanto os cavaleiros que compunham o séquito real se espalharam pela cidade, deixando-o, portanto, sem escolta que guardasse sua segurança. Os conspiradores logo aproveitaram a ocasião e, para que não houvesse a menor dificuldade em levar  a bom termo a sua audácia criminosas, subornaram os criados da abadia que retiraram as trancas e fechaduras das portas. Então, numa certa noite, depois de terem os servidores do rei se retirado e estando este desarmado, a conversar com a rainha e as suas damas, ouviu-se lá fora um grande alarido, como de gente apressada que se aproximava. O rei logo percebeu que eram seus inimigos que vinham para assassiná-lo; e o pior de tudo é que não tinha como defender-se porque estava sem armas. Mas, como sabia que por debaixo daquele quarto havia um subterrâneo, arrancou algumas tábuas do chão e deixou-se escorregar pela abertura. Acabavam as damas de repor as tábuas no seu lugar, quando os traidores invadiram o quarto e, não encontrando nele o rei, procuraram-no em vão por todos os cantos. Em seguida retiraram-se.  
                 Quando o soberano e as damas julgaram que o perigo já havia passado,  estas retiraram as tábuas para que o rei pudesse sair do seu esconderijo. Mas naquele mesmo instante, ouviu-se novamente o tropel de passos que se aproximavam; é que um dos traidores lembrou  da existência do tal subterrâneo e chamou a todos para voltar e verificar se o rei não estaria escondido lá. 
                  Diante de tal situação, não havia mais tempo para colocar as tábuas no seu lugar antes da chegada dos conspiradores. A porta estava sem as trancas e fechaduras que pudessem impedir a imediata entrada; só existiam as passadeiras de ferro onde se enfiava a tranca. 
                   Desesperada, uma das damas da rainha, clamada Catherine Douglas, correu para a porta e enfiou o próprio braço no lugar da tranca, gritando ao mesmo tempo aos amotinados que não deveriam entrar porque elas estavam despidas e não havia mais ninguém além delas naquele quarto. 
                   Mas de nada adiantou seus apelos, os traidores forçaram a porta e quebram o braço de Catherine; entraram no quarto e, vendo que as tabuas do chão estavam soltas, desceram ao subterrâneo e lá mesmo assassinaram o rei. 
                   Embora Catherine não tenha conseguido salvar a vida do rei, sua façanha se tornou célebre e passou a ser contada em lendas e canções por todo o pais. A partir de então passou a ser chamada de Catherine Barlass, que significa "a donzela do ferrolho", porque, com seu gesto corajoso tentou manter a porta fechada usando seu próprio braço tão frágil. 
Nicéas Romeo Zanchett 

NOTAS FINAIS 
Conta-se que esta é uma história verídica que ocorreu na Escócia no dia 20 de fevereiro de 1437. Catherine era uma das damas da rainha que, mais tarde ficou conhecida como "kate Barlass, por sua bravura, na tentativa de salvar a vida do rei. 
Em seu poema, o escritor Dante Gabriel Rossetti, sob o título de "Tragédia do Rei" contou a história de Catherine Douglas no versículo em 1881.  Ha uma linha que diz: "Catherine, mantenha a porta!". 
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domingo, 29 de setembro de 2013

O MOLEIRO E SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO


O MOLEIRO E SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO
Histórias antigas
                Numa certa ocasião, uma quadrilha de ladrões instalou-se  numa cabana escondida no meio de um matagal. Passaram a assaltar os viajantes que por ali andavam. Isso acontecia a qualquer hora do dia ou da noite. Além disso, invadiam as chácaras e roubavam os lavradores. 
                Uma tarde, em que um moleiro do local tinha ido à cidade fazer compras, os bandidos entraram em sua casa, apoderaram-se de tudo o que lhes interessou e depois, por pura maldade, atearam fogo ao seu moinho. 
                 Ao anoitecer, quando o moleiro voltou, teve a triste surpresa de se encontrar arruinado; mas o que mais o apoquentou foi o fato deles terem levado todas as suas provisões. Ele era um bom homem e não se importava consigo mesmo, mas muito se preocupava com a alimentação do seu burrinho, seu gato, seu cão e seus patinhos. Como vivia só, tinha se afeiçoado àqueles indefesos animais. 
                 Depois de muito pensar, decidiu que seria melhor dar-lhes a liberdade, mesmo que para isso tivesse que perdê-los para sempre. Certamente essa era melhor decisão para não vê-los morrer de fome. 
                 Cheio de dor no coração, chamou-os e disse-lhes: 
                 - Meus queridos amiguinhos, como podem ver, os ladrões levaram-me tudo. Fiquei arruinado e não tenho como sustentá-los. Tu, meu pobre burrinho, ficaste sem palha e milho, e tu meu querido cão, já não tens carne para comer, nem tu, meu pobre gatinho, e também vocês, queridos patinhos, ficaram sem o seu milho preferido. Enfim, não tenho mais nada para dar-lhes de comer.  Por isso terão de ir embora à procura de alguma coisa para não passarem fome. 
                  Os animais ficaram muito tristes, mas não havia outro remédio; tinham que abandonar seu amo e sair pelos campos lutando pela própria sobrevivência. E saíram, caminhando pelas estradas,  matas e campos à procura de abrigo e sustento. 
                 Muito andaram, por vários dias, e por fim chegaram à cabana dos salteadores; ali eles estavam todos sentados em volta de uma grande mesa, fartando-se com os alimentos roubados do bom homem,  que eles tanto amavam. 
                 O cão voltou-se para seus companheiros e disse-lhes baixinho: 
                 - Esta é uma ótima oportunidade de passarmos bem  noite e nos vingarmos desses bandidos. Vocês vão se esconder no meio do mato e façam o maior barulho que puderem. Vamos ver se assim esses ladrões se assustam e fogem. 
                 Todos os animais se meteram por entre o matagal, em volta da cabana, e, de repente, começaram todos a gritar ao mesmo tempo, fazendo lembrar um orquestra muito desafinada. O zurrar do burro, o miar do gato, o agudo ladrar do cão e o terrível grasnar dos patos formavam uma tal algazarra que os ladrões ficaram assombrados. Sem entender o que estava acontecendo, olhavam uns para  os outros cheios de espanto. Então um dos patos voou por cima da mesa e, com as asas, derrubou a vela e apagou a luz. 
                Cheios de terror, no meio daquela escuridão e daqueles horríveis gritos, os ladrões desataram a fugir. 
                Radiante pela vitória, os animais entraram todos na cabana e, como estavam com muita fome, avançaram sobre os alimentos e comeram o que havia restado da ceia; depois foram todos dormir e se recuperar do cansaço.
                 O burro deitou-se ao pé da porta da cabana; o cão foi para debaixo da mesa, sobre a qual o gato se enroscou; e os patos arrumaram algum lugar mais alto onde se sentiram melhor para passar o restante da noite. 
                  Mas os ladrões, assim que recuperaram o ânimo, resolveram ir ver o que tinha acontecido, e o capitão da quadrilha encaminhou-se para a cabana. Viu que tudo estava às escuras, mas no mais completo silêncio e resolveu entrar. 
                  Com o barulho dos seus passos, os animais acordaram sobressaltados. O cão partiu para cima do ladrão e deu-lhe uma terrível dentada na perna. Quando este aproximou-se da mesa foi a vez do gato arranhar-lhe toda a cara, e, ao mesmo tempo, os patos esvoaçaram, dando-lhe muitas e fortes pancadas na cabeça. Já apavorado, o capitão tentou fugir, mas ao passar pela porta, o burro deu-lhe um forte coice que o jogou em cima das ortigas. 
                  Muito dolorido e aterrorizado, o bandido afastou-se correndo e foi contar o ocorrido aos seus comparsas. Disse-lhes que uma quadrilha de criminosos havia se apoderado  da cabana, que seria melhor não mais voltar para lá, sob o risco de morrerem todos. 
                  - Esses bandidos são tão  ferozes, dizia ele, que um deles cravou-me o punhal na perna, outro golpeou minha cabeça com uma afiada navalha, e uns três ou quatro quiseram amarrar-me um laço de pano ao pescoço para enforcar-me. Quando já ia fugindo, um outro deu-me uma paulada nas costas que me jogou longe. Só fiquei vivo por milagre. Parece que o melhor que temos a fazer é irmos embora desse lugar o mais rápido possível. 

                 Apavorados com aquela descrição, os bandidos fugiram às pressas, e nunca mais voltaram. 
                 Quando o dia amanheceu todos despertaram e o cão, que tinha passado o restante da  noite num canto, onde escavara um buraco para melhor se acomodar, viu que havia algo muito estranho debaixo da terra. Escavou mais um pouco e descobriu que se tratava de um grande saco de moedas de ouro; Com a ajuda de todos, conseguiram colocar o saco nas costas do burro e voltaram radiantes para casa. 
                 Ao chegarem encontraram o moleiro ainda triste, mas espantado por vê-los de volta tão rápido. Contaram-lhe tudo o que havia ocorrido. 
                 O bom moleiro ficou radiante, e com o dinheiro trazido pelos seus fieis amigos, pode restaurar seu moinho e voltar a trabalhar, como fazia antes. E todos lá viveram felizes por muitos anos; sempre lembrando alegremente da original aventura que viveram. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O GATO DE BOTAS - C. Perrault


O GATO DE BOTAS 
Por C. Perrault
Adaptação: Nicéas Romeo Zanchett 
                     Numa pequena cidade, um pobre moleiro vivia com seus três filhos. Os únicos bens que possuíam eram o moinho, um burro de carga e um gato. 
                     Quando o pobre homem morreu, o filho mais velho herdou o moinho; o segundo filho herdou o burro; o mais moço ficou com o gato. 
                      Este último não fico nada satisfeito com a divisão da herança e pensava: - Meus irmãos, com o que herdaram, podem trabalhar e ganhar dinheiro; já eu, que posso fazer? Nada me resta a não ser matar o gato para comê-lo. Depois, a única coisa que fosso fazer é esperar e morrer de fome.... 

                      Sentou-se num canto da casa, triste e pensativo. De repente ouviu uma vozinha delicada e ficou surpreso quando percebeu que era o seu gato. Dizia assim: 
                      - Não se desespere, meu caro dono; tenha confiança em mim que vou ajudá-lo. Preciso apenas de um alforje (saco fechado nas extremidades) e um par de botas. Depois deixe-me agir livremente e verá oque posso fazer.... 
                      O jovem rapaz olhava muito espantado para o gato. Mas, resolveu dar-lhe o alforje e as botas que pedira. O bichano agradeceu-lhe muito, saudou-o com alegria, despediu-se e desapareceu. Foi até um campo onde havia muitas lebres. Conseguiu caçar uma, enfiou-a no alforje e dirigiu-se ao palácio do rei. 
                     Quando chegou ao palácio foi recebido pelos cortesões, que acharam muito engraçado aquele gato de botas, riram-se muito, mas deixaram-no passar. 
                      Ao chegar até o rei, o bichano fez uma reverência e lhe disse: 

                     - Majestade! Aceitai esta lebre. É um presente do meu amo, o marques de Carabás. 
                     - Muito obrigado, gatinho, respondeu o rei. E diga ao seu amo que o presente muto me agradou. 
                    Alguns dias depois o gato caçou duas gordas perdizes e levou-as também ao rei, que ficou muito agradecido. 
                     No dia seguinte, estando o rei a passeio com sua filha, linda como o sol, ouviu alguns gritos que vinham do rio: 

                      - Socorro! Socorro!... 
                      Imediatamente foi ver o que estava acontecendo e lá encontrou o gato de botas, que com as patas e o rabo lhe fazia gestos desesperados e gritava: 
                     - Socorro! Depressa! O marques  de Carabás está se afogando...
                     Realmente o rei viu emergir na água uma cabeça e dois braços. 
                     O ardiloso gato havia dito a seu amo que fosse tomar banho no rio e fingisse que estava se afogando quando o rei passasse com sua filha. 
                     O moço, que já conhecia a esperteza do seu bichano, confiando nele, obedeceu sem nada perguntar. 
                     Por ordem do rei, o suposto marques de Carabás foi retirado do rio pelos seus guardas. 
                      Como estava em trajes menores, o gato começou a gritar: 
                      - Ai! meu pobre amo! Os ladrões lhe roubaram as roupas... 
                      - Isso não é nada! disse o rei. Quero que imediatamente vá um pajem ao palácio e traga roupas, das melhores, para o gentil marques de Carabás! 

                      Assim se fez e pouco depois o jovem apresentou-se ao rei e à sua filha, magnificamente vestido. Era um rapaz muito elegante. A princesa ficou impressionada e dirigiu-lhe o mais doce dos olhares... 
                      Enquanto isso acontecia, o gato tinha seguido sozinho pela estrada. 
Lá adiante encontrou uns camponeses ceifando trigo. Disse-lhes energicamente: 
                      - Quando o rei passar por aqui, digam-lhe, sob pena de morte, que estas terras pertencem ao marques de Carabás! 

                     Pouco depois o rei chegou àquele lugar e perguntou aos camponeses: 
                     - Me digam senhores, de quem são estes belos campos trigo? 
                     - São do marques de Carabás, responderam eles prontamente, enquanto olhavam para os verdes e ameaçadores olhos do gato de botas. 
                     O rei admirou aquelas férteis terras e a viçosa plantação de trigo, felicitando o marques de Carabás. 
                     A essa altura o moço já estava aturdido com tanta coisa que estava lhe acontecendo. Mas, mesmo sem compreender bem o que se passava, agradeceu ao rei, com muitas mesuras. 
                     Dando continuidade ao seu plano, o gato adiantou-se na estrada e chegou ao castelo de um feiticeiro. 
                     Enchendo-se de coragem, entrou, apresentou-se ao dono, inclinou-se dizendo ao mesmo tempo: 
                     - Bom dia, senhor mago! 
                     - Bom dia, senhor gato! respondeu o feiticeiro. Que que de mim? 
                     - Posso fazer uma pergunta? 
                     - Como não? Pode perguntar-me qualquer coisa. A tudo sei responder! 
                     - Ouvi dizer que é tão poderoso que pode se transformar em um animal qualquer e, como isso me parece muito extraordinário, eu queria ver com meus próprios olhos!... 
                    - É muito fácil, disse o mágico. Pois vai ser atendido em sua curiosidade. 
                    Dito e feito. Imediatamente transformou-se num leão, a rugir furiosamente. O gato tremia de medo. Mas, por felicidade, o encanto durou pouco e o feiticeiro logo recuperou sua forma humana. 
                     Logo que se refez do susto, o gato disse ao mago: 
                     - Muito bem!  Que coisa espantosa! O senhor é mesmo muito poderoso! Porém, parece-me impossível - e é o que dizem - que possas transformar-se num animal pequeno... Por exemplo, um ratinho... 
                     - Impossível? Quem disse tal besteira? Pois verá se posso ou não. e se transformou num pequeno rato. 
                     Então, de um só salto, o gato atirou-se sobre o ratinho e devorou-o sem piedade. 

                     Logo em seguida, saiu correndo do palácio do bruxo e foi ao encontro do seu amo, do rei e da princesa, dizendo-lhes com grandes reverências: 
                     - Majestade! Princesa! Rogo-lhes que visitem o palácio do meu dono, o marques de Carabás! 
                     A essa altura o jovem rapaz já nem sabia mais o que pensar, tais eram as surpresas que seu gato lhe aprontava. Mas ficou na dele, esperando o que iria acontecer em seguida. 
                      O rei entrou no belo palácio do feiticeiro com seu cortejo, e todos ficaram admirados com seu luxo e riqueza. 
                     A princesa, que já estava encantada pelo rapaz, ficou impressionadíssima; lançava-lhe os mais cativantes olhares e só pensava em casar-se com ele. Aproximou-se de seu pai, o rei, dizendo-lhe que ficaria muito feliz se lhe permitisse casar-se com o marques de Carabás. O consentimento foi imediatamente dado com grande alegria. 
                     Poucos dias depois, o casamento realizou-se com muta ponta e grandes festejos. 
                     Na festa, o gato de botas comeu tantos ratos assados que quase morreu de indigestão. 

                     A partir daquele dia, o moço pobre e seu gato, viveram felizes no palácio em companhia do rei, dos príncipes e da princesa, que então era sua esposa. 
                     O moço pobre filho do moleiro, nuca se arrependeu de seguir os conselhos do seu astuto e querido bichano. 
                     Os seus irmãos, que pensaram tê-lo passado para trás, só ficaram sabendo, mais tarde, que estava casado com a princesa. 

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Nicéas Romeo Zanchett 
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domingo, 4 de agosto de 2013

HENRIQUE, O PREGUIÇOSO - Irmãos Grimm




HENRIQUE, O PREGUIÇOSO 
 Pelos Irmãos Grimm 
de 
Contos e Lendas 
                   Era uma vez um grande preguiçoso chamado Henrique, o qual, embora não tivesse outra coisa a fazer senão levar diariamente a cabra a pastar, todavia, à noite, após terminado o dia de trabalho, se punha a suspirar: 
                    - É, na verdade, um trabalho penoso e cansativo o  meu! Todos os dias ter de levar ao pasto esta cabra, um dia, depois outro, até ao fim do outono!  Se ao menos a gente pudesse deitar-se e dormir! mas qual, é preciso manter os olhos bem abertos e ver que ela não estrague os tenros arbustos,  que não entre nalgum jardim através das cercas e também que não fuja.  Como é possível  ter um pouco de paz e gozar a vida? 
                    Um dia, sentou-se num canto, muito concentrado, e  ruminava como haveria de fazer para ficar livre daquele peso. Meditou longamente, mas em vão. De repente, porém, teve uma ideia. 
                    - Ah, já sei o que hei de fazer! - exclamou: - caso-me com a gorda Rina. Ela, também, possui uma cabra; junto com a dela poderá levar a minha, assim será desnecessário que eu continue a estafar-me. 
                    Decidido isso, Henrique levantou-se, pôs em movimento os pobres membros cansados e atravessou a rua, pois era apenas essa a distância que o separava da casa onde habitavam os pais da gorda Rina.  E pediu-lhes a mão da virtuosa e diligente filha. Os pais não perderam tempo a pensar. 
                    - Deus os fez e agora os junta! - disseram, e deram o consentimento.  
                    Assim pois, a gorda Rina tornou-se a esposa de Henrique e teve que levar ao pasto as duas cabras. 

                   Henrique folgava o dia todo e só tinha que descansar da sua preguiça. Uma vez ou outra ele dava uma chegada ao pasto, dizendo: 
                   - Faço isto só para gozar melhor o descanso; caso contrário a gente acaba por não apreciá-lo bastante. 
                    Acontece, porém, que a gorda Rina não era menos  preguiçosa que ele. E, um belo dia, disse:  
                    - Querido Henrique, para que havemos de amargurar nossa vida sem necessidade e desperdiçar os melhores anos de nossa mocidade? estas duas cabras, que com seu irritante balido nos despertam todas as manhãs no melhor do sono, não achas melhor dá-las ao nosso vizinho, em troca de uma colmeia?  Poderemos colocar a colmeia no fundo do quintal, em lugar bem ensolarado e não teremos preocupações com ela.  Não é preciso vigiar as abelhas nem levá-las a pastar; elas voam por conta própria e sozinhas encontram o caminho de volta para casa; além disso, produzem mel sem nos dar a menor amolação! 
                    - Falaste como mulher sensata, - respondeu Henrique; - acho que a tua é uma proposta que deve ser  levada a efeito imediatamente, e além disso, o mel é muito mais saboroso e nutritivo do que o leite de cabra e pode  ser conservado muito tempo. 

                    O vizinho deu de bom grado uma colmeia em troca das duas cabras. As laboriosas abelhas voaram de cá e de lá desde manhã cedo até à noite, e em pouco tempo encheram a colmeia de belíssimos favos dourados; portanto, quando chegou o outono, Henrique pode colher um pode bem cheio de mel. 
                    Resolveram guardar o pote numa trave pregada bem em cima da cama, no quarto e, com receio de que os ratos pudessem achá-lo, Rina muniu-se de uma vara de aveleira e colocou-a ao lado da cama para tê-la à mão, sem ter necessidade de levantar-se, nem ter o incômodo de sair da cama para enxotar os prováveis intrusos. 

                    O preguiçoso Henrique não gostava nunca de levantar-se antes do meio-dia e costumava dizer: 
                     - Quem levanta cedo, desperdiça o que é bom. 
                     Uma bela manhã, quando o dia já estava bem claro e ele ainda repousava nas fofas plumas, descansando do longo sono, ocorreu-lhe dizer á mulher: 
                    - As mulheres gostam do que é doce e tu vives  lambiscando o mel; antes que acabes com ele, tu sozinha, é melhor vendê-lo e comprar uma gansa com um gancinho. 
                    - Mas não antes que tenhamos um filho para tomar conta deles! - disse a mulher. - Achas, por acaso, que devo aborrecer-me com os gancinhos e despender  inutilmente minhas forças com eles? 
                    - E tu achas que o menino cuidaria dos gansos? - retorquiu Henrique. - Hoje em dia, os filhos já não obedecem a ninguém, só fazem o que lhes dá na veneta porque se julgam mais sabidos do que os pais; Justamente como aquele criado que foi procurar a vaca tresmalhada e pôs-se a correr atrás dos melros. 
                   - Oh. - respondeu Rina, - pobre dele se não fizer o que eu mandar! Pegarei num pau e lhe curtirei a pele com pancada! Olha, Henrique, - gritou ela exaltada, e pegou a vara que trouxera para enxotar os ratos; - Olha como lhe hei de bater! 
                   Assim dizendo, ergueu o braço para sacudir a vara, mas, infelizmente, bateu no pote de mel que estava em cima da trave; o pote bateu na parede e, caindo, despedaçou-se. O delicioso mel esparramou-se todo pelo chão. 

                  - Lá se foram a gansa e o gancinho, - disse Henrique, - agora não mais teremos de cuidar deles. Sorte que o pote não me caiu na cabeça: temos mesmo de nos regozijar com isso! 
                   E, vendo um pouco de mel num caco de pote, Henrique estendeu a mão, apanhou-o e disse muito contente: 
                   - Aproveitemos este restinho, mulher; depois descansaremos um pouco deste grande susto que levamos. Que importa se nos levantarmos um pouco mais tarde do que de costume? O dia é sempre bastante comprido! 
                   - Sim, - respondeu Rina, - e chegaremos sempre a tempo. sabes, uma vez a lesma foi convidada a um casamento, ela pôs-se a caminho mas só chegou  no dia do batizado. Ao chegar diante da casa, sucedeu-lhe porem cair da cerca, e então exclamou: 
                   - Maldita a minha pressa! 

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